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Local - Mundo - Saúde - 08/01/2022

Respostas de Brasil e México à varíola do macaco preocupam especialistas

Infectologistas afirmam que os dois países só começaram a responder à doença depois do aumento do número de infectados

REUTERS – As lesões de Francisco começaram depois de voltar para casa, na Cidade do México, vindo da Califórnia, no fim de junho: primeiro, duas manchas nas nádegas. Então, uma semana depois, lesões por todo o corpo e a boca tão cheia de feridas que mal conseguia falar ou beber água.

“A dor era indescritível, catastrófica”, disse Francisco, de 44 anos, que pediu à Reuters que ocultasse seu nome verdadeiro.

Francisco foi uma das pelo menos 59 infecções por varíola do macaco confirmadas no México desde maio, que os especialistas acreditam subestimar o número verdadeiro.

Na América Latina, o México está atrás do Brasil e do Peru em casos confirmados da doença viral, que se espalhou principalmente entre homens gays e bissexuais como Francisco.

Foto : Reprodução/Reuters

A OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a varíola do macaco uma emergência de saúde global em 23 de julho, provocando maior atenção das autoridades regionais. No entanto, alguns médicos e ativistas nos dois maiores países da América Latina disseram à Reuters que a resposta tem sido muito morna.

“Não estamos vendo as medidas necessárias sendo tomadas nem a importância necessária dada à varíola do macaco”, disse o dr. Sergio Montalvo, especialista em saúde sexual na Cidade do México.

Médicos como Montalvo temem que as autoridades não tenham aprendido lições com a pandemia de Covid-19, que sobrecarregou os sistemas de saúde e deixou os governos sem dinheiro.

A história é semelhante no Brasil, onde mais de 970 infecções representam mais de dois terços do total da região, segundo dados da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde).

O Ministério da Saúde brasileiro anunciou um plano de contingência em 28 de julho, mais de um mês após o primeiro caso e um dia antes de relatar a primeira morte por varíola do macaco fora da África no atual surto.

“Já estávamos recebendo notícias sobre o surto na Europa e nos Estados Unidos, mas o governo não fez nada”, disse Vinicius Borges, especialista em doenças infecciosas em São Paulo. Segundo ele, a dor das lesões da varíola dos macacos teve “efeitos graves” em seus pacientes.

Os ministérios da Saúde de Brasil e México não responderam a vários pedidos de entrevista.

Após a declaração da OMS, o Ministério da Saúde do México lançou um site sobre varíola do macaco e seu segundo comunicado com informações sobre o vírus – o primeiro desde que o país confirmou um caso em maio.

“Nestes dois meses, já poderíamos ter feito um progresso significativo”, disse Ricardo Baruch, pesquisador de saúde LGBT que ajudou a organizar um protesto na Cidade do México na semana passada para pedir maiores esforços a fim de direcionar a prevenção a homens que fazem sexo com homens.

Um estudo no New England Journal of Medicine mostrou que 98% das infecções no surto em andamento fora da África atingem homens gays e bissexuais.

As autoridades de saúde mexicanas têm evitado enfatizar os riscos para esse grupo.

“Elas não querem criar estigma, mas se não falarem sobre isso as políticas não serão focadas em nós”, disse Baruch.

A microbiologista Natalia Pasternak também expressou preocupação com as mensagens do Brasil.

“Não há um esforço do governo federal para conscientizar a população sobre como se pode pegar a varíola do macaco, como é transmitida de pessoa para pessoa, como se reconhecem as lesões na pele e como ela pode ser transmitida de perto ou no contato sexual”, afirmou Pasternak.

Em 25 de julho, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que o governo fez o dever de casa para se preparar, apontando quatro laboratórios que fazem testes.

Mas “levará algum tempo para construir capacidade de teste no Brasil”, disse Pasternak, membro do conselho consultivo para varíola do macaco no estado de São Paulo. “Nós realmente não vemos a intenção do Ministério da Saúde de fazer esse planejamento.”

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