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Biden - EUA - Novo Normal - Política - 12/12/2022

Republicano radicaliza discurso para tentar garantir presidência da Câmara

O Partido Republicano obteve maioria na Câmara nas eleições de novembro e retomará o controle da Casa a partir de janeiro

FOLHAPRESS – O novo Congresso que toma posse em 2023 promete complicar a vida do Executivo, combatendo o que acredita ser doutrinação nas escolas e o que chama de “ideologia de gênero”, ameaçando apurar a permissividade com o crime organizado e fazendo críticas a supostos planos de restringir a liberdade de expressão nas redes sociais em conluio com as big techs.

Essas são indicações dadas pelo deputado americano Kevin McCarthy, republicano da Califórnia, caso seja eleito presidente da Câmara dos Representantes em janeiro -como tudo indica que será.

Para chegar lá, ele tem radicalizado o discurso em nome de conquistar as alas mais conservadoras da própria legenda, abrindo uma crise com os mais moderados que, no limite, pode até lhe tirar o cargo.

O Partido Republicano obteve maioria na Câmara nas eleições de novembro e retomará o controle da Casa a partir de janeiro. Mas a vitória, que garantiu 222 das 435 cadeiras, foi mais apertada do que o previsto –são só quatro assentos além dos 218 necessários.
McCarthy, 57, é hoje o líder da legenda, o que, em situações normais, garantiria a ele a presidência da Câmara a partir de 3 de janeiro, quando o novo Congresso toma posse. Mas o estado de ânimos da política americana tem dificultado o alcance de consensos, sobretudo entre os republicanos, divididos entre radicais devotos de Donald Trump e quem defenda deixar o ex presidente para trás.

Nascido na Califórnia, o deputado foi eleito pela primeira vez em 2006 e rapidamente galgou espaço na política interna da legenda. No começo da carreira era tido como representante da ala jovem moderada, os “young guns” (armas jovens), e chegou a lançar um livro com esse título clamando por mais consenso bipartidário para avançar pautas importantes para o país.

No governo Trump, porém, foi se aproximando da agenda conservadora e se transformou em forte aliado do presidente. Dias após a eleição de 2020, ainda durante a apuração, chegou a dizer à Fox News que o republicano havia vencido, antes de o resultado oficial apontar o democrata Joe Biden como vencedor.

A maré virou na sequência da invasão do Capitólio, quando uma multidão insuflada por Trump tentou impedir à força a confirmação da vitória de Biden. McCarthy se voltou contra o então presidente e, em conversas privadas que vazaram à imprensa, chegou a pedir sua renúncia. Esse é um dos principais motivos para a bancada radicalizada do partido temer que ele não seja fiel aos ideais trumpistas.

Habilidoso politicamente, porém, o líder soube ler o cenário e se reaproximou do ex-presidente, inclusive jogando na fogueira seu antigo braço direito, Liz Cheney -que votou pelo impeachment do republicano e integra a comissão que investiga o 6 de Janeiro.

Mas agora, como precisa de 218 votos para ser eleito presidente da Casa e os republicanos serão 222, ele tem margem mínima de dissenso. Estimativas da imprensa americana apontam que lhe faltam cinco apoios, e recentemente ele passou por um susto: na eleição da liderança republicana na Câmara, Andy Biggs o desafiou e, ainda que não tenha ameaçado a vitória, conquistou 31 votos -o eleito teve 188.

Segundo o grupo do deputado do Arizona, há cerca de 20 republicanos contrários a uma presidência McCarthy, o que fatalmente o tiraria da disputa, considerando que democratas não devem votar nele.

Por isso, McCarthy tem cortejado o Freedom Caucus (bancada da liberdade), grupo de cerca de 40 parlamentares ultraconservadores e próximos de Trump. Um dos acenos mais simbólicos foi feito em uma visita ao Texas no fim de novembro; na fronteira com México, ele disse que abriria apurações contra o secretário de Segurança Interna, Alejandro Mayorkas. É um antigo pleito do grupo radical, insatisfeito com as políticas migratórias do governo Biden.

“Se Mayorkas não renunciar, os republicanos da Câmara investigarão cada ordem, cada ação e cada falha para determinar se podemos iniciar investigações de impeachment”, disse, em El Paso.

Na última semana, ele divulgou a lista de prioridades das apurações que promete abrir, e no topo da lista está a que mira Mayorkas.

Entre os motivos, ele inclui desde o impacto do tráfico de drogas na região até o que afirma serem “falsas alegações de que policiais ‘chicotearam’ imigrantes em Del Rio”. Em setembro do ano passado, imagens de agentes de fronteira a cavalo, com as rédeas na mão, perseguindo imigrantes haitianos rodaram o mundo e abriram uma crise no governo –a Casa Branca condenou a ação.

Mas a lista de investigações que ele promete patrocinar se estende: vai da influência da China nos EUA e as origens do coronavírus à caótica retirada de tropas americanas do Afeganistão e um dos filhos do presidente, Hunter Biden. Também empresas de tecnologia que, “em coordenação e conluio com o governo e oficiais de inteligência”, pretendem “silenciar a liberdade de expressão”. E o que ele chama de doutrinação nas escolas.

McCarthy já disse que salas de aula “se tornaram um campo de batalha no qual ideologias políticas concorrentes, teorias de gênero e ciência lixo estão em guerra contra o bem-estar das crianças”, citando “políticas prejudiciais promovidas por sindicatos de professores de ultraesquerda” que “envenenam as mentes das crianças”.

O acenos à base radicalizada, porém, têm incomodado parlamentares moderados, e fala-se até em um acordo com democratas para tentar eleger um republicano centrista -a empreitada, porém, demandaria chegar a algo próximo da unanimidade entre os 213 deputados do partido de Biden para se juntarem a 20 republicanos dissidentes de forma a alcançar 218 apoios.

Também existe a possibilidade de desafetos não comparecerem à votação. Como o número de votos necessários está ligado à maioria dos presentes, se houver 426 dos 435 deputados, a maioria exigida passa a ser de 213, justamente o número do Partido Democrata. Isso permitiria que Hakeem Jeffries, recém-indicado à liderança da legenda, fosse eleito –é improvável, no entanto, que os republicanos abram mão da presidência.

A falta de consenso na escolha do líder da Casa trava a pauta na Câmara, e os deputados precisam votar quantas vezes for necessário até que o presidente seja escolhido. A última vez que um impasse grande aconteceu foi há cem anos, em 1923, quando a eleição de um republicano demandou nove votações. Em 1849, foram 60 rodadas até o consenso e em 1856 a Câmara parou por dois meses porque ninguém conseguia maioria.

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